
A miopia da maioria das pessoas
costuma espantar-me. Tenho muitos conhecidos que se sentem diariamente
obcecados pela educação de seus filhos, qual o melhor jardim de
infância, se devem preferir escolas particulares ou públicas, quais os
melhores cursos pré-vestibulares, maximizando a importância das notas
obtidas e das atividades extracurriculares de modo a conseguirem
matricular o filho naquele colégio, naquela universidade, ad infinitum. Depois começam o mesmo ciclo em relação aos netos.
Essas pessoas acham que este mundo está imobilizado no tempo e que o futuro será uma reprodução do presente.
Se
continuarmos a derrubar as nossas florestas e destruir as nossas
fontes de oxigênio, o que essas crianças estarão respirando daqui a
vinte ou trinta anos? Se envenenarmos nossos sistemas hidráulicos e
nossos ciclos de alimentos, o que elas irão comer? Se continuarmos
cegamente a produzir fluorcarbonetos e outros detritos orgânicos e a
destruir a camada de ozônio, poderão elas viver ao ar livre? Se
superaquecermos o planeta mediante algum efeito estufa, fazendo subir o
nível dos oceanos, e inundarmos as nossas praias e exercermos pressão
excessiva sobre as falhas oceânicas e continentais, onde elas irão
viver? E os filhos e netos, na China, na África, na Austrália e no
resto do mundo, serão igualmente vulneráveis, pois também vivem neste
planeta. Convém pensar nisto: se e quando reencarnarmos, seremos uma
dessas crianças.
Portanto, por
que toda essa preocupação com vestibulares e universidades quando
talvez não exista um mundo para os nossos descendentes?
Por
que essa obsessão com o prolongamento da vida? Por que desejar fazer
estender nosso fim geriátrico por mais alguns anos infelizes? Por que a
preocupação com níveis de colesterol, dietas de trigo integral,
contagem de lipídios e exercícios aeróbicos?
Não
será mais sensato viver com alegria agora, tornar mais plenos os
nossos dias, amarmos e sermos amados, do que nos preocuparmos tanto com
nossa saúde física em um futuro incerto? E se não houver um futuro? E
se a morte for a nossa libertação para a felicidade?
Não
estou dizendo que devemos desprezar o corpo, que seja certo fumar ou
beber excessivamente, usar substâncias abusivas ou ficarmos
grosseiramente obesos. Essas condições nos causam dor, sofrimento e
incapacidade. Mas não se preocupem tanto com o futuro. Tratem de
encontrar a felicidade hoje.
A
ironia de tudo isso é que, se adotarmos essa atitude e procurarmos ser
felizes no presente, provavelmente viveremos mais tempo.
O
nosso corpo e a nossa alma são como um carro e o seu motorista.
Lembre-se sempre de que você é o motorista, não o carro. Não se
identifique com o seu veículo. A ênfase de hoje em prolongar a duração
da vida, em viver até os 100 anos de idade ou mais, é loucura. É como
continuar a usar seu Ford antigo além dos trezentos mil ou dos
quinhentos mil quilômetros. A carroceria do carro está enferrujando, a
transmissão já foi reformada cinco vezes, as peças do motor estão
caindo, e você insiste em não abandonar o carro. Enquanto isso, há um
Mustang novo em folha esperando por você, bem perto de você. Basta-lhe
sair do carro velho e entrar nesse belo Mustang. O motorista, a alma,
nunca muda. Somente o carro.
E quem sabe se existe uma reluzente Ferrari esperando por você em algum ponto da estrada?
É preciso saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro.
Tudo de bom e até muito breve.











